Amanda, primeira bailarina com síndrome de Down a usar sapatilha de ponta

Um bailado solitário toma conta da sala de dança. Ao fundo, a música Súplica cearense é interpretada na voz de Elba Ramalho. Amanda Pereira de Lima, 19 anos, rodopia, gesticula e sorri enquanto se equilibra na ponta dos pés. Ela é a única bailarina com síndrome de Down do Norte/Nordeste a dançar com uma sapatilha de ponta. Um verdadeiro desafio para meninas na sua condição. Quando entrou no balé, aos quatro anos, Amanda nem imaginava o significado daquele ato. Hoje, sua dança graciosa revela possibilidades variadas na vida de outras tantas pessoas.

No dia da entrevista, Amanda vestia um figurino vermelho e branco repleto de brilho. Recebeu com um abraço apertado. Enquanto posava para fotos, mandava beijos para a mãe, a dona de casa Ana Paula Silva Lima, 43 anos. Sentada, observava emocionada o espetáculo de superação da filha. “Quando soube da síndrome, chorei e pensei: ‘por que eu?’ Hoje sinto muito orgulho da minha filha”, conta Ana Paula, que também é mãe de um rapaz de 22 anos. Daquele dia em diante, deixou o emprego para se dedicar à filha. O balé surgiu primeiramente como uma solução para a flacidez dos músculos, comum às pessoas com Down. Terminou como redenção para Amanda.

A aluna faz aulas de dança de segunda a sexta-feira. Tem duas professoras. Uma delas, Jeane Barbosa, acompanha a menina desde o começo. A outra, exclusivamente de balé clássico, entrou no bailado de Amanda há três anos. “Amanda, o que você sente quando dança?”, pergunto. “Sinto emoção, emoção de chorar”, responde. Em uma apresentação recente, a menina desceu do palco para abraçar um morador de rua que chorava na plateia de um evento aberto ao público. Amanda é doce em forma de gente. Gosta de abraçar, beijar. É o xodó da família. Da turma de dança também. “Porque ela é fofinha”, justifica uma adolescente.

No início, Jeane confessa ter sentido certa dificuldade em aceitar aquela criança com Down entre seus alunos. Mas um olhar de Amanda ajudou na conquista. “Ela foi uma luz. Depois da sua entrada, muitas mães que deixavam suas filhas em casa porque achavam que elas eram incapazes começaram a trazer as meninas para a dança”, explica a professora, idealizadora da Formação de Balett, Jeane Barbosa. A iniciativa congrega balé clássico, expressão corporal, teatro e canto. “Para dançar com a sapatilha de ponta é mais difícil que com a sapatilha com meia-ponta. Tem que ter treinamento. Amanda é uma guerreira”, pontua Jeane, na dança há 35 anos.

Amanda descobriu ser dona do título de primeira bailarina com Down do Norte/Nordeste a usar sapatilha de ponta em um encontro em Curitiba, em outubro do ano passado. No Rio de Janeiro, diz a mãe de Amanda, também atua uma bailarina, com 28 anos, nas mesmas condições. Em agosto, Amanda recebeu da Câmara Municipal do Recife a Medalha do Mérito José Mariano. No mês passado, apresentou-se na Faculdade Guararapes e terminou inspirando universitários por causa de sua determinação com a dança. Amanda, o bebê nascido desafio, hoje cresce como superação.

Via Diário de Pernambuco

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