Microcefalia: Prevenção e cuidados com os bebês

O surto de microcefalia em recém-nascidos no Brasil, principalmente em Pernambuco, já é um alerta mundial. A Organização Mundial da Saúde (OMS) e a Organização Panamericana da Saúde (Opas) divulgaram um alerta sobre o vírus zika nas Américas, já confirmado como causa do problema de saúde nos bebês. O aumento dos casos é recente e diversos estudos ainda estão sendo realizados.

Nesta quinta-feira (03), a chefe do setor de infectologia do Hospital Oswaldo Cruz (Huoc), Ângela Rocha, em entrevista ao Portal G1 Pernambuco, informou que uma nova suspeita começa a ser levantada pelos pesquisadores da microcefalia no estado. A má-formação gestacional poderia estar relacionada à junção do zika com outros vírus, todos transmitidos pelo mosquito Aedes aegypti, causador também da dengue e da febre chikungunya. O mosquito possui a capacidade de carregar três vírus ao mesmo tempo em seu corpo, mas ele só consegue transmitir um por picada. “Uma mesma pessoa pode ser picada por diferentes mosquitos e receber vírus diferentes, mas o mesmo mosquito só transmite um vírus de cada vez”, explica.

A prevenção é fundamental e a OMS reafirma a importância de garantir que grávidas tenham acesso ao pré-natal. Para as mulheres que residem em áreas com o vírus zika, a recomendação é que tomem precauções para evitar o contato com o vetor. Algumas medidas que podem ser tomadas são o uso de mosquiteiros, de roupas que cubram as extremidades, como camisas com manga e calças, para reduzir o risco de picada, e a utilização de repelentes (na gestação, procurar orientação médica para o uso). Em casos de bebês com suspeita, deve-se procurar imediatamente ajuda médica para avaliação e encaminhamento para tratamentos necessários.

Para esclarecer mais sobre o assunto, O Blog Fala Fisio entrevistou a fisioterapeuta pediátrica e mestre em biofísica Antonietta Cláudia Carneiro, que atua na Clínica de Fisioterapia Pepita Duran com avaliação e acompanhamento de bebês de risco. Ela explicou mais sobre a microcefalia e a atuação da Fisioterapia e outras áreas da saúde nos casos. Confira trechos da conversa com informações valiosas da profissional:

A Microcefalia

– “A microcefalia não é uma doença em si. Ela é um achado clínico, dentre outros que podemos encontrar em diversas patologias que atingem os recém-nascidos. Em se tratando da microcefalia causada pelo zika vírus, além da capacidade de atravessar a barreira placentária, parece existir um tropismo deste vírus pelo sistema nervoso do feto que está em formação. Dependendo do momento em que este vírus atinge o sistema nervoso, ele poderá atuar impedindo a migração neuronal e dificultando o desenvolvimento do encéfalo. Então, o bebê acaba chegando ao momento do nascimento com o cérebro ainda pouco formado, apresentando muitas vezes uma lisencefalia (poucos sulcos e giros), além de outros achados como áreas de calcificações e hidrocefalia.

A consequência da microcefalia será uma Encefalopatia Crônica Não Progressiva (ECNP), também conhecida como Paralisia Cerebral, que possui causas pré, peri e pós natais. A Toxoplasmose, a Rubéola, o Citomegalovírus, e o Herpes Vírus, são exemplos de causas pré-natais de ECNP. Muito provavelmente, o zika Vírus logo será incluído nesta lista de fatores etiológicos da ECNP.

O tratamento portanto, irá depender dos outros sinais e sintomas que devemos identificar durante a avaliação destes pacientes. De certo, eles irão precisar de uma equipe multiprofissional que, dependendo do quadro clínico de cada criança, poderá incluir neuropediatra, ortopedista, fisioterapeuta, fonoaudiólogo, terapeuta ocupacional, psicólogo, nutricionista, etc.

A Paralisia Cerebral é conceituada como um grupo de desordens do desenvolvimento e da postura, causando limitações nas atividades e podem ser acompanhadas por alterações na sensação, percepção, cognição, comunicação e comportamento, podendo também ser acompanhadas por crises convulsivas. Portanto, é muito provável que em todos os casos as crianças, em muitos momentos da vida, necessitem de acompanhamento fisioterapêutico”.

De acordo com Antonietta, o diagnóstico clínico da microcefalia é definido pelo médico neurologista. O fisioterapeuta é responsável pelo diagnóstico cinesiológico funcional do paciente. E todas as crianças diagnosticadas pelo médico com o problema devem ser levadas a um fisioterapeuta pediátrico para avaliação. “Como o quadro clínico poderá variar muito, todas estas crianças devem ser encaminhadas muito precocemente para realização de uma avaliação com um fisioterapeuta pediátrico. O mesmo deverá identificar as necessidades de cada bebê e encaminhar para o tratamento fisioterapêutico mais adequado”, diz. Não existe obrigatoriedade de um encaminhamento para que os responsáveis pela criança procurem um fisioterapeuta. Porém, muitas vezes, os planos de saúde não cobrem os procedimentos fisioterapêuticos sem que um médico tenha avaliado a criança e feito uma prescrição para Fisioterapia. Então, vale já conversar sobre o encaminhamento com o médico.

Atuação da Fisioterapia

– “Todos os profissionais que estiverem envolvidos na assistência a esses bebês vão contribuir direta ou indiretamente para uma melhor qualidade de vida destas crianças e suas famílias. O fisioterapeuta vai atuar desde a avaliação fisioterapêutica, com a aplicação de protocolos padronizados de avaliação, de acordo com o quadro clínico e a faixa etária de cada criança, até a assistência hospitalar e ambulatorial. Muitas crianças deverão necessitar de visitas semanais ao fisioterapeuta durante longos anos.

Existem várias áreas de atuação do fisioterapeuta, que podem contribuir na assistência a estas crianças. Porém, como sendo esta uma patologia de acometimento neurológico, o fisioterapeuta especializado em neuropediatria será o mais indicado para atuar nestes casos. A maioria dos pacientes irá necessitar de atendimento fisioterapêutico individualizado em consultório, ginásio ou piscina com diversos recursos pertinentes à área. Estes atendimentos individualizados têm duração média de 30 a 40 minutos, onde o profissional deverá enfatizar a aquisição dos marcos motores para cada idade, bem como traçar objetivos que priorizem a independência funcional da criança dentro de suas possibilidades”.

Cuidados imediatos

A arma mais importante neste momento é a informação. Os familiares precisam compreender que estas crianças não podem ficar desassistidas quanto aos cuidados de saúde. Elas precisam, no mínimo, de um acompanhamento sistemático com um neuropediatra e realizar uma avaliação fisioterapêutica para iniciar um acompanhamento do desenvolvimento motor destes bebês, o quanto antes. Só este acompanhamento será capaz de mostrar as reais necessidades atuais e futuras, para que se possa conduzir o caso com seriedade. Não se pode generalizar quanto a gravidade do quadro motor destas crianças com microcefalia, pois cada criança que nos aparece tem se apresentado com quadro clínico diferente, portanto só um profissional especializado em desenvolvimento infantil poderá realmente discutir sobre prognóstico com a família.

Via: Fala Fisio!

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