Clarita: Down que ajudou a curar a depressão de jogador argentino

Ele foi um volante de sucesso, da “Escola Fernando Redondo”. Começou a carreira no River Plate, em 1991. Passou por times como Sevilla, Lazio, Parma e Inter de Milão. Foi medalha de prata nos Jogos Olímpicos de Atlanta-1996. Virou técnico em 2011, justamente no River, seu primeiro e também último clube como jogador. De lá, foi para o Banfield. Desde o ano passado, está no Chivas Guadalajara.

Uma carreira de sucesso, certo? Certo. Mas algo não estava, digamos, “certo”.

“Estava deprimido. Ver Clarita me deu força, me fez entender que a realidade da vida é outra, que eu não poderia me deprimir por não jogar mais, não poderia me prender”. A frase de Matías Almeyda, ao falar sobre sua sobrinha, está em sua “Alma y Vida”, escrita pelo jornalista argentino Diego Borinsky.

O rosto de Clarita reflete doçura e ternura, que invadem o técnico do Chivas Guadalajara. A menina é a mais nova de suas sobrinhas, todas tratadas como suas filhas.

Clarita nasceu em 30 de dezembro de 2007. Quatro meses depois, foi operada com coração aberto. Almeyda diz não esquecer o dia da cirurgia. Ele acompanhou sua irmã Silvina em todos os momentos, que classifica como “os mais difíceis” que viveu. O hoje ex-jogador, ainda na ativa na época, tinha entregado a vida da criança a “um cirurgião, um homem grande, de 70 anos. Ele recebeu 800 pesos, algo assim, pela cirurgia. Isso me parecia tão ilógico, tão injusto. Isso me matou.”

Conhecendo Clarita

“Vamos las Chivas”, gritou a pequena no fim de setembro, após a vitória por 2 a 1 sobre o Monarcas Morelia, um grito que acompanhado por Almeyda, que está há mais de um ano no clube.

Clarita: ‘Quero uma sociedade inclusiva’

Na entrevista coletiva depois do jogo, o assistente técnico Omar Zarif faz as vezes de repórter e pergunta para Clarita o que ela grita antes das partidas. Ela diz “Gol!”, ele repete a pergunta. A pequena sorri e levanta a voz para um “Vamos carajo!”, depois corrigindo para “Vamos Chivas!”. Almeyda, sentado na bancada, cai na risada antes de pegar a sobrinha no colo e posar para fotos. Um crucifixo acompanha os dois.

Um dia antes da partida entre Chivas e Morelia, Clarita conheceu Verde Valle, o centro de treinamento da equipe, ficando quase o tempo todo ao lado do tio técnico e dos jogadores titulares. Ela também gritou “Vamos Chivas, carajo” enquanto conhecia jogadores como Carlos Salcido, Michael Perez, Eduardo Lopez e Jair Pereira. De repente, ouviu um “Você não vai me dar um beijo?” do fisioterapeuta Gustavo Witte, ao qual ela concordou imediatamente.

O ressurgimento

Clarita tem Síndrome de Down, algo que ajudou Almeyda a superar uma depressão depois de deixar o futebol aos 31 anos, no Brescia, depois de cinco partidas na temporada 2004-2005. Seriam dois jogos pelo Lyn, da Noruega, em 2007-2008, e quatro pelo Fênix, da Argentina, em 2009, antes do retorno ao River (64 partidas entre 2009 e 2011). Entre o Brescia e o River, foram quatro anos, quatro anos que Almeyda se considera fora do futebol. Desses, pelo menos dois anos foram acompanhados da depressão.

“Matías tem duas irmãs, e Clarita é a mais jovem de uma delas, Silvina. O que ele viveu com sua sobrinha fez ver as coisas de uma maneira diferente, o ajudou a sair deste momento difícil que ele teve depois de deixar o futebol e se envolver com a Associação das Pessoas com Síndrome de Down”, disse Borinsky, autor da biografia do ex-jogador, à ESPN.

A sorridente Clarita, sobrinha que mudou a vida de Matías Almeyda

Almeyda vai para os jantares de caridade para a causa e faz contribuições financeiras. Por seu envolvimento, foi premiado em 2012 como uma pessoa de destaque no esporte pela Legislatura da Cidade de Buenos Aires.

“Ele é uma pessoa com sensibilidade, que fica tocado com certas as coisas. Ele deixou o futebol aos 31 anos e sempre renegou tudo o que era do futebol, protestava contra empresários, jornalistas, com a falsidade e o ambiente do futebol, mas acabou voltando a tudo isso quatro anos depois”, afirmou Borinsky.

Clarita, Almeyda e sua esposa, Luciana 

“Depois de passar pela depressão e repensar um monte de coisas, ele percebeu que queria continuar no futebol. O caso de uma pessoa que se aposenta aos 31 anos fala sobre um muito sobre o momento sensível que essa pessoa estava passando. As coisas não se encaixavam, tudo era injustiça e falsidade, e ele ficou muito mal”, completou o jornalista.

O autor da biografia ressaltou que a conexão de Almeyda com Clarita mudou a perspectiva da vida do técnico. “Ela nasceu com um problema genético, mas desde pequenina teve uma conexão muito forte com ele, uma ligação muito especial. Ver Clarita e o que ela transmitia lhe deu forças, o ajudou a ver as coisas de forma diferente. É como uma filha para ele.”

“Clarita é o sol da família, é a pessoa que nos uniu”, disse Almeyda.

Via ESPN.
O conteúdo original, em espanhol, pode ser lido em “Clarita, la niña que ayudó a Matías Almeyda a salir adelante“.

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