Como acontece a inclusão de crianças com autismo?

A construção de uma comunidade que inclua crianças com todos os tipos de habilidade é importante para todos.

“Ensinar crianças com desenvolvimento considerado típico para ser amigos e mentores de crianças com autismo foi extremamente eficaz na promoção de interações sociais positivas e duradouras”, afirma Kathleen O’Grady com base em uma recente pesquisa sobre o autismo. “Isso se confirmou entre gêneros diferentes, diferentes idades, ambientes e atividades apresentadas. Uma característica interessante é que essa prática se mostrou mais eficiente em ambientes ‘normais’ de brincadeira do que em ambientes clínicos ou terapêuticos”.

Kathleen O’Grady
12 de junho de 2016 – publicado pelo Toronto Star

Sentir-se parte importante de uma comunidade deveria ser a norma para todas as crianças – mas, com frequência, não é o caso para as crianças com autismo.

Histórias publicadas pela imprensa mostram a constante luta dos pais para incluir seus filhos com autismo na comunidade. Casos de exclusão do sistema escolar, em restaurantes, lojas e aviões são lugar comum. A velha história ‘Ninguém veio à festa de aniversário do meu filho’ já se tornou quase um gênero nos círculos de autismo. E, se você conhecer pais de crianças com autismo, vai saber que a exclusão dessas crianças em atividades extracurriculares ou passeios escolares acontece regularmente.

Em outras palavras, crianças com autismo são frequentemente excluídas sistematicamente de suas comunidades. Mas isso tem um custo – para todos.
É assim que acontece a inclusão de verdade.

Durante anos recebemos muitas ligações da escola do nosso filho, para falar de algum caso de ansiedade, seus desafios para aprender, sua dificuldade de ficar sentado, parado e concentrado por períodos mais longos. Nosso filho, Casey, tem autismo, uma desordem neural do desenvolvimento que costuma ser caracterizada por comportamentos rígidos e repetitivos, dificuldade de comunicação social e desenvolvimento intelectual irregular, entre muitos outros desafios. Frequentar uma escola regular não foi sempre fácil para ele.

Portanto, receber um telefonema da escola do Casey não era incomum. Mas aquela ligação foi boa.
A professora me disse que o Casey foi para o ensaio semanal do coral, como de costume, mas a regente estava atrasada. Normalmente, o ensaio começa com um aquecimento. A regente canta uma frase e as crianças respondem em coro.

A regente finalmente chegou e ela ainda estava tentando se organizar, mas as crianças estavam ficando inquietas. De repente, Casey se levantou e cantou a primeira frase do aquecimento – a frase normalmente usada pela regente: “Levantem-se” – ele cantou baixinho.

Todas as crianças se aquietaram e cantaram, em resposta, “Levantem-se”. Aí, o Casey cantou a próxima frase, “Pés afastados”. E as crianças responderam, cantando, “Pés afastados”.

O Casey liderou o coral durante todo o aquecimento, como se fosse a coisa mais normal do mundo. A regente deixou que ele continuasse, impressionada, e assistiu aquele pequeno momento mágico. Foi um momento da comunidade, e o Casey era parte integral dela – mais do que isso, ele era o líder.

Hoje em dia as evidências mostram que interações significativas com colegas com desenvolvimento típico oferece às crianças com autismo benefícios sociais e intelectuais importantes, ao mesmo tempo os colegas também se beneficiam desta interação.

Uma análise de “intervenções mediadas por colegas” examinou 45 estudos diferentes realizados ao longo de vários anos e concluiu que ensinar as crianças com desenvolvimento típico a ser amigo, ou atuar como mentor, de crianças com autismo é “altamente efetivo” para promover interações sociais positivas duradouras. Os resultados positivos foram constatados entre gêneros diferentes, idades diferentes, ambientes diferentes e em diferentes tipos de atividades propostas. O mais interessante é que se mostrou a prática foi ainda mais eficaz em ambientes ‘naturais’ de brincadeiras do que em ambientes clínicos e terapêuticos.

Os estudos analisados foram amplamente variados, indo do estabelecimento de um “sistema de parceiro” – em que uma criança com desenvolvimento considerado normal passa a formar par com uma criança autista – até a mentoria de colegas (crianças ensinando crianças) e brincadeiras em grupo, em que todas as crianças trabalham juntas pelo mesmo objetivo. Como os pesquisadores notaram, os resultados não eram apenas temporários, mas tinham potencial duradouro e ajudaram a plantar a semente para a melhoria das habilidades de linguagem, adaptação a outros ambientes integrados e relações mais positivas e duradouras com os colegas.

Portanto, de acordo com os estudos, as crianças com autismo se beneficiaram tremendamente quando suas comunidades as incluíam e com elas se relacionavam de maneira significativa, naturalmente, nas brincadeiras e no aprendizado. Mas e as crianças com desenvolvimento típico?

Acontece que elas também gostam desses programas e aprendem muito com eles. Num estudo que envolveu as crianças típicas no aprendizado social de colegas com autismo, as crianças foram entrevistadas posteriormente. Oitenta e três por cento disseram ter “gostado muito” e as outras 17% disseram “ter gostado” da experiência. Os professores também relataram que os estudantes se beneficiaram ajudando uns aos outros, valorizaram a promoção da tolerância e compreensão, e perceberam que a prática poderia ajudar a reduzir o bullying.
Em outras palavras, ensinar todas as crianças a interagir de maneira significativa umas com as outras é construir uma comunidade real e beneficia a todos.

Nós temos sorte porque o Casey faz parte de uma escola pública inclusiva que conhece e pratica a construção da comunidade diariamente. Não é só parte de sua pedagogia, é parte de seu sistema de valores como educadores.
A iniciativa de Casey ao assumir o aquecimento do coral naquele dia não era apenas uma demonstração de sua capacidade de liderança – que foi uma prazerosa surpresa para todos nós – mas sim uma demonstração de que ele sabe que pertence àquele local, e as outras crianças também.

Kathleen O’Grady é pesquisadora associada no Simone de Beauvoir Institute, Universidade de Concordia, Montreal, e mãe de dois filhos, um deles com autismo.

Tradução: Babeth Bettencourt

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