Autismo: vencendo as barreiras da comunicação

Os maiores desafios para o aprendizado de uma pessoa com o Transtorno do Espectro Autista (TEA) são a linguagem e a comunicação. Muitos pais encontram dificuldades e dúvidas sobre como ajudar seus filhos a superar o problema. Como mãe de autista, também passei por isso. No meu caso, a orientação de uma professora em São Paulo me ajudou a refletir. Ela iniciou com essa pergunta: qual a finalidade de falar? Então, prosseguiu dizendo que as pessoas sem TEA sabem perfeitamente o objetivo da fala, pois aprenderam ao longo do seu desenvolvimento e assimilaram por imitação. Porém, o autista não encara o mundo a sua volta dessa maneira.

A partir desse diálogo, entendi que as pessoas com o transtorno encaram essa habilidade de forma abstrata. Então, o primeiro passo é fazê-lo entender o propósito e as possibilidades que a comunicação oferece. Na realidade, todo autista quer se comunicar. Eles procuram isso frequentemente. Mas não sabem como.  Por isso, é preciso tornar essa ação concreta para a criança e adolescente. Uma das formas é criar a necessidade.

Com o meu filho, o processo que se mostrou mais fácil foi justamente com aquilo que ele mais amava: comer. Eu precisava proporcionar condições favoráveis para a comunicação. Como agravante, ele ainda apresentava afasia congênita infantil, perda da fala. Porém, ao tornar o processo visual e concreto, ele foi adquirindo a linguagem e as primeiras palavras surgiram aos seis anos de idade.

Acompanhei outros casos, além do meu filho. Por exemplo, ao atuar como mediadora e orientadora familiar e escolar, acompanhei o tratamento de uma criança de três anos. Ela não verbalizava. Não dizia uma só palavra. Foram iniciadas as terapias com cartões/cartas mostrando ações do cotidiano dela, com o intuito de assimilar som e imagens de objetos. Ao término de três meses, estava iniciando a verbalização já dizendo claramente mamãe, papai, quer água, tchau tia, entre outras expressões. Três anos depois, já iniciava conversas, dizia sua opinião e formulava sentenças sem o auxílio dos cartões.

Esses exemplos destacam que todo processo de aprendizagem do autista, seja qual for o grau, sempre será visual, pontual, mas com suporte, dentro da real necessidade daquela criança e de forma concreta. Mas para tudo funcionar é fundamental explicar os propósitos e benefícios de cada atividade.

Portanto, tenhamos o cuidado ao atuar com nossos autistas. Precisamos ser transparentes com eles para podermos captar suas reais necessidades e assim favorecer a um bom desenvolvimento, que é tão único e frágil.

(*) Emanoel Freitas é escritor, pesquisador, palestrante, mediador escolar e familiar, além de ser presidente e fundador da Associação de Apoio à Pessoa Autista (AAPA).

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